AS PERSPECTIVAS E OPORTUNIDADES NAS ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR NO BRASIL

Leila Okumura

O conceito de Terceiro Setor parece ainda não estar claro para muitas pessoas, apesar de estar presente na vida de todos há muito tempo. Já no século XVIII, começaram a surgir algumas idéias que posteriormente tornar-se-iam parte desse conceito. Uma delas pregava que o homem deveria interagir com a sociedade em que vive, buscando sempre o melhor para ela, e, assim, alcançando o seu próprio bem estar.

Segundo Lester Salomon, o Terceiro Setor pode ser definido como uma imponente rede de organizações privadas autônomas, não voltadas à distribuição de lucros para acionistas ou diretores, atendendo propósitos públicos, embora à margem do aparelho formal do Estado. Esse setor envolve entidades, instituições, organizações não-governamentais, associações culturais, fundações privadas e movimentos sociais organizados, entre outros.

O Terceiro Setor vem demonstrando dia a dia que pode vir a ser uma alternativa efetiva para o grande problema mundial do desemprego. Nos Estados Unidos, segundo Salomon, gera recursos da ordem de US$ 660 bilhões por ano. No Brasil, a situação é diferente, mas caminha para a mesma direção pois, apesar de sermos carentes em cultura social, o setor já emprega 2% da população nacional, o que corresponde a mais de um milhão de pessoas. Isso sem contar com a grande quantidade de voluntários.

Tal crescimento se deve, em sua maior parte, à conscientização das grandes empresas de que possuir responsabilidade social num mercado globalizado é um importante fator para sua sobrevivência. Essa tendência tem feito com que mais investimentos na área se realizem, tornando, assim, o setor mais atrativo para profissionais especializados, que antes só atuavam como voluntários devido à pouca valorização do trabalho no setor. Diante desse cenário, grandes empresários estão migrando para essa área que, segundo eles, proporciona maior satisfação profissional e pessoal.

O presente artigo pretende analisar a atual situação do Terceiro Setor no Brasil e abordar também quais são os fatores que estão fazendo com que diversos profissionais troquem o setor privado pelo setor não-lucrativo. Além de relatar as opiniões de vários profissionais da área que, através de entrevistas, retrataram suas perspectivas para esse setor tão promissor e, ao mesmo tempo, incerto.

Perspectivas e Oportunidades nas organizações do Terceiro Setor

Um estudo recente realizado pela Universidade de Harvard mostrou que as empresas socialmente responsáveis apresentam uma taxa de crescimento quatro vezes maior que a das companhias focadas apenas na geração de lucro para os acionistas. As organizações estão percebendo que investir no Terceiro Setor é altamente vantajoso para sua saúde geral. Além de trazer melhorias à sua imagem perante os clientes - que estão se preocupando cada vez mais em consumir produtos de empresas responsáveis social e ecologicamente - melhoram a motivação de seus funcionários, que trabalham com mais satisfação ao saber que também estão contribuindo para a transformação da realidade na qual estão inseridos.

Várias companhias já estão respondendo a essas pressões do mercado, como é o caso da C&A, cuja filosofia social tem sido aplicada no dia-a-dia da empresa, com incentivos para seus funcionários trabalharem como voluntários dos projetos sociais criados por ela. Podemos citar ainda outros exemplos de empresas preocupadas em contribuir de alguma forma para a melhoria da sociedade, como é o caso da Xerox do Brasil, do Banco Itaú, do Bank Boston e da Fundação Educar/Dpaschoal, que investem altas quantias no Terceiro Setor.

A tendência é que a responsabilidade social torne-se um aspecto tão importante para as corporações como o são hoje a qualidade, a competitividade e a capacidade de reter talentos. Isso pode ser comprovado pela criação de uma norma internacional para essa área, a SA8000, que certificará a empresa que for ética com seus clientes, fornecedores, funcionários e com a sociedade.

Diante dessa realidade, cada vez mais empresas criam suas fundações para cuidar especialmente dessa parte tão valorizada pelo público: a responsabilidade social. Sendo desenvolvidas por empresas estruturalmente bem organizadas, tais fundações tendem a ter esse mesmo perfil, ou seja, possuir uma organização similar à do setor privado. Possuem equivalente hierarquia, profissionalismo e importância da organização criadora, requisitando, desta maneira, profissionais – principalmente administradores - com um bom nível técnico.

Por isso, mais e mais profissionais começam a ver o Terceiro Setor como uma opção efetiva de carreira. Segundo alguns entrevistados, apesar desse setor ainda oferecer uma remuneração menor do que a do setor privado – cerca de 15 % a menos – a motivação de se trabalhar em uma entidade sem fins lucrativos é bem maior. A justificativa é o fato de que eles trabalham movidos por seus ideais, além de conviverem num ambiente mais agradável de trabalho, onde o espírito de equipe é essencial para o bom funcionamento da instituição.

Diferentemente do setor privado, o Terceiro Setor busca algo além do simples lucro: procura atingir metas, transformar realidades, lutar por alguma causa social ou ecológica e este, talvez, seja o atrativo principal para que vários empresários conceituados estejam migrando para esse “novo” setor. Afinal, a realização pessoal e profissional é praticamente garantida, já que os resultados podem ser vistos de maneira clara nos olhos de uma criança integrada a sua família ou na felicidade de uma pessoa aprendendo a ler, por exemplo.

Segundo Eloise Helena de Campos, da Fundação Iochpe, o Terceiro Setor é atrativo por se poder trabalhar com pessoas que buscam os mesmos ideais, participando de uma ambição coletiva – diferente do setor privado, onde as ambições são, geralmente, individuais – e, assim, estar ajudando uns aos outros. Mas, segundo ela, é preciso policiar-se para não tratar um deficiente físico como uma caixa de sabão em pó.

Um caso real que mostra o crescente interesse de empresários experientes pelo setor é o de Roberto Galassi Amaral, atual superintendente do Gife, que trabalhou em várias empresas privadas, mas acabou encontrando no Terceiro Setor um ótimo terreno para aplicar sua experiência profissional. Segundo ele, nesse setor é necessário mais jogo de cintura do administrador pois não existe visão de curto prazo, mas sim eficiência dos projetos em seu lugar.

Entretanto, apesar do Terceiro Setor estar caminhando para o mesmo grau de profissionalização dos outros dois setores, algumas especificidades se fazem notar. A administração de uma entidade sem fins lucrativos necessita de habilidades específicas para a captação de fundos, – essencial para a sobrevivência desta – trabalho em equipe, conhecimento em marketing, contato real com a missão da organização e ainda muita diplomacia nas relações humanas.

É preciso estar sempre atento para os objetivos estabelecidos pela organização, porque como não há o lucro como resultado final, existe a possibilidade da missão ser ofuscada diante dos vários projetos desenvolvidos. E, para que isso não aconteça, torna-se essencial um bom planejamento estratégico. Como diz Peter Drucker “para organizações sem fins lucrativos, ser guiado pelo mercado é tão importante quanto ser guiado por um ideal”. Outro ponto relevante, já mencionado, é a diplomacia, ou seja, a boa relação com outras empresas e fundações, já que esse setor necessita de investimentos privados para continuar existindo.

O cenário brasileiro mostra que, apesar de ainda ser tímida sua participação no mercado, o Terceiro Setor tende a ser cada vez mais valorizado pelas empresas e profissionais. Segundo Fábio Kanashiro, da Fundação Ashoka, as perspectivas são otimistas. Para ele, o setor irá crescer e se profissionalizar ainda mais, tornando-se uma opção real de carreira.

Porém, nem todos acreditam nessa tendência, como é o caso de Max Dante, da Fundação Travessia, que acredita no setor, mas acha que ainda levará um bom tempo para que as empresas efetivamente se conscientizem da importância dos investimentosna área. Dante acredita que a profissionalização nesse setor demore um bom tempo para se equiparar com a do setor privado.

Uma das preocupações do Terceiro Setor é o fato de as empresas não estarem totalmente conscientes da importância de sua responsabilidade social. Muitas delas possuem essa responsabilidade devido à filosofia e cultura do atual dono ou gestor. Isso indica que esta ainda não está integralmente inserida na cultura organizacional da empresa, ou seja, se acaso o gestor ou dono abandone a organização, caberá ao seu sucessor decidir se a parte social será prioridade ou não.

Portanto, apesar do grande crescimento do Terceiro Setor no Brasil, ainda há muito a ser feito. O processo de conscientização e de mudança estrutural na filosofia e cultura das organizações será demorado mas, diante de trabalhos tão gratificantes e de sucesso como o do Instituto C&A, da Fundação Ayrton Senna e da Abrinq, tudo indica que o setor não veio apenas contribuir para melhorar a sociedade, mas sim para transformá-la.

Referências Bibliográficas

FERNANDES, Rubem César. Público Porém Privado – O Terceiro Setor na América Latina. Editora Relume Dumará. 2ª edição. FALCONER, Andrés. “Um setor ou diversos – Reconhecendo um Terceiro Setor no Brasil.” Referência incompleta. SALOMON, Lester. “A emergência do Terceiro Setor – uma revolução associativa global.” In Revista de Administração, São Paulo v.33, n.1, p-5-11, janeiro/março 1998. VASSALLO, Cláudia. “Agenda para o Futuro”. In Revista Exame, Abril, São Paulo, Janeiro de 1999. LANDIM, Leilah. Defining the Nonprofit Sector: Brazil. The John Hopkins Comparative Nonprofite Sector Project – Working Paper, Julho 1993.